domingo

Armando acordou cansado


Armando acordou cansado, voltou-se para o outro lado com vontade de não sair da cama….
Mas tinha que ser, não podia chegar atrasado, logo hoje que o chefe de sector vinha ter com ele… o chefe de sector …o João Rocha!
Trinta anos mais novo que ele, e cheio de novas estratégias de marketing,  e com uma conversa que enjoava Armando, que nesta labuta já andava há muitos, muitos anos.
Agora estava quase na “prateleira”, depois de ter dado quase toda a sua vida ao laboratório, do qual nunca saiu.
Arrastou-se até à casa de banho, e sem vontade de tomar banho, sem vontade de nada, nem duche tomou.
Disfarçou qualquer coisa com uma lavadela de cara e um desodorizante barato.
Armando já tinha conhecido melhores dias na Indústria Farmacêutica, não era aumentado já lá iam 5 anos, e pacientemente, observava o desfile de gente tão nova a ser promovida a cargos, para os quais Armando não lhes reconhecia competência, com ordenados, escandalosamente chorudos.
Armando sabia visitar médicos, sabia como se fazia uma excelente visita de informação médica, como falar com eles, sabia o que tinha de esperar, conhecia a zona há mais de 20 anos, passeava-se por ali há tanto tempo que assistiu a mudanças e andanças nas vidas de quase todos os médicos, que o conheciam tão bem, e que por hábito, respeito ou sei lá o quê, prescreviam a Sinvastatina do Sr. Armando, medicamento, que até há algum tempo tinha nome, e agora era só sinvastatina com a sigla do seu laboratório.
Agora, com a invasão de vários genéricos, com várias marcas, a luta era outra, e mais feroz. Para Armando não fazia sentido que os medicamentos genéricos fossem mascarados com pseudo marcas …
E tanto lhe custou a adaptar-se a tantas coisas novas, e à degradação total, da Indústria Farmacêutica, que foi observando tristemente na sua profissão. Esta sua profissão, que tanto o tinha feito orgulhar-se de si mesmo, no tempo em que se sentia preciso.
Por isso Armando não tinha nenhuma vontade de passar o dia com o seu chefe João Cabral, tinham tão pouco para dizer um ao outro.
Armando pressentia que a conversa daquele dia, que começou tão preguiçosamente, não iria ser agradável para o seu lado, isto porque recordava o discurso do director geral de vendas na última reunião de ciclo, onde frisava a todo o instante, a necessidade duma remodelação de estratégias e na indispensável injecção de juventude no “campo”! Iriam recrutar delegados novos…
Armando podia adivinhar o que lhe esperava e por isso, como num acto de protesto infantil, recusou-se a tomar banho naquela manhã.
Sem se barbear queria confrontar o seu chefe que tinha quase a mesma idade que o seu filho Henrique, que estava quase a acabar a faculdade.
E o que ele tinha sofrido para que o filho ali chegasse, mas pelo menos tinha a certeza que nunca o seu filho, faria as mesmas figuras idiotas, que o João Cabral fazia com o maior à vontade.
João Cabral, que de instrução era parco e só se sabia valer, e bem, da sua esperteza meio mesquinha e sem escrúpulos.
Cansado, depois de ter dormido tantas horas, preparava-se para tudo naquele dia.
Olá Armando, como estás?
O chefe, tinha madrugado propositadamente para chegar antes dele, assim começava o dia já cheio de trunfos, tão primário e evidente…
Sabes Armando, nos dias de hoje se não estamos aqui por volta das oito da manhã, perdemos meio-dia de trabalho…há que visitar os médicos no começo das consultas, senão como é que eles se vão lembrar de prescrever a nossa sinvastatina, e sabes que neste momento há mais de 20 diferentes no mercado! Temos que inovar Armando…, definir estratégias, pensar mais rápido que os outros, tu sabes que esta “guerra” hoje é assim…já não tem nada a ver com aquilo a que estavas habituado…isso são tempos que já lá vão!
Começou logo assim, sem dar tempo a Armando para, pelo menos, respirar depois de o cumprimentar.
Armando não respondia, geralmente não respondia e apenas abanava a cabeça como quem concorda com tudo o que ouve.
Tal como previra o dia ia ser quente de temperatura e humores…
Sim, de facto nada disto tinha a ver com os outros tempos …
Armando lembrava-se do tempo em que visitava médicos especialistas nos seus consultórios, fazia amizade com as secretárias e era sempre tão bem recebido por todos eles. Nessa altura havia tempo para conversar, para explicar e até para deixar algumas amostras de medicamentos, que os médicos guardavam, muitas vezes para dar a doentes mais necessitados e que pouco dinheiro tinham para gastar na farmácia…. O pensamento vagueava por esses tempos que não diziam nada a João Cabral…esses tempos, em que eram poucos na profissão … esses tempos em que a sua profissão era ainda, tão digna…
Já falei com a Dr.ª Ricardina e com o Dtº Castelo, vamos levá-los ao congresso internacional, eu já fiz a primeira abordagem mesmo aqui à porta, agora na visita combinamos os detalhes, tu estás a precisar disto Armando! Senão como é que vais subir a tua cota de mercado, paninhos quentes já não dá. Mas não te preocupes eu estou aqui para te ajudar.
Armando fingia agradecer com um leve acenar de cabeça, graças a tudo e mais alguma coisa, graças a ele, que tinha conseguido que o seu filho estudasse aquilo que gostava e no qual iria ser bom certamente, e nunca na vida teria que ser hipócrita para ninguém, tal como ele teve que ser tantas vezes.
Pensava em tudo isto enquanto observava os maneirismos de João, o seu sorriso de plástico e as suas operações de charme, daquele mais baratinho, mas que encantava as doutoras ali do sítio, já entradas na idade e querendo rejuvenescer a todo o custo, pintando o cabelo e as unhas de cores estranhas.
Começaram o dia assim… e Armando falava de trivialidades com médicos que conhecia há anos, mas que por qualquer razão se tinham esquecido dele na hora das prescrições, e por isso tinha que concordar com o João Rocha, há que fazer alguma coisa.
Sabia que o laboratório, tinha verba disponível para levar médicos daquela zona ao congresso internacional, que naquele ano seria nas Filipinas, o convite estendia-se à família, pelo menos a um acompanhante.
Fazendo contas de cabeça, Armando concluía que a zona subiria consideravelmente em cota de mercado, a sua Sinvastatina ia sobressair…afinal o João estava ali para o ajudar, ou adiar a sua reforma antecipada… pensada nisto, nauseou-se e não conseguiu disfarçar um enorme desconforto, que o fez afastar-se de João com uma desculpa qualquer, foi comprar cigarros…
Pelo menos uns minutos, tinha que arejar sozinho.
Terminada a manhã, depois das visitas, dos convites e do “negócio” feito, foram almoçar.
Armando queria comer depressa por não suportar olhar de frente a cara de João durante muito tempo.
Tu viste Armando?! Não custou nada! Estavam mortinhos pelo convite, agora vamos ver se a Dr.ª Ricardina pode levar os filhos…mas deixa estar que eu falo com o Lopes. Tens o ano safo, aqui!
O Lopes… era o director nacional de vendas… ele conseguia…. Armando nunca se quis questionar como eram justificadas estas despesas, que perante a lei não são permitidas e severamente punidas. Mas agora não queria pensar nisso… olhando distraidamente, para os caracóis luzidios de brilhantina de João Cabral…começou a olhar muito para lá daquela imagem plastificada à sua frente.
E, recordou os tempos em que reivindicava os direitos dos trabalhadores com uma força desmesurada, em que combatia a corrupção e que lutava mesmo na clandestinidade contra o fascismo, o tráfico de influências e todas essas lutas que quase se obrigou a esquecer…será que João Cabral, no cimo dos seus ridículos sapatos de biqueira quadrada, sabia o que isso era?...será que passava valores de liberdade e responsabilidade aos seus filhos..?
Perguntava-se mentalmente, sorrindo e adivinhando logo a resposta.
Nem abordou nenhum assunto com João Cabral, simplesmente assentia com a cabeça com um sorriso mascarado de satisfação e um sentimento oculto de nojo desconsideração pelo seu jovem chefe, que brilharia com os seus números no final do ano.
A sinvastatina do Armando iria vender mais que nunca graças aquela gente das Filipinas….
Sim João de facto vai ser muito bom para mim…pode ser que aguente no laboratório até ao final do ano, talvez assim o Lopes não me dispense com uma indemnização e o subsídio de desemprego….obrigada João
Pois é Armando…até final do ano tas safo….mas não te esqueças que está prevista uma fusão do nosso laboratório com outro, em Janeiro…e aí já sabes como funciona…infelizmente é assim…muda tudo, e os mais velhos são sempre dispensados…
Armando voltou para casa ao fim do dia, nem tinha tido tempo de falar um bocado com a Helena que estava marcada com ele naquele dia, naquele centro de saúde, também lá estavam o Carlos e a Elisa, mas com esses colegas ele falava pouco, tal como ao João Cabral, pouco tinha para lhes dizer….
Já quase ao anoitecer entrou em casa, era Verão esteve demasiadas horas na forçada companhia do seu chefe, e voltava agora derreado, já sem força para lutar, para falar, ou mesmo tentar ensinar qualquer coisa.
Aquele seu fantástico chefe, tanto que ele ainda não sabia.
Triste concluiu que não valia a pena…que estava acabado para aquela profissão, pela idade, pela inadaptação, por tudo e mais alguma coisa.
Só se sentia satisfeito de não ser obrigado a corromper mais ninguém depois do fim do ano.
Se calhar voltaria para a luta que tinha deixado a meio, já com quase 60 anos, 30 deles dedicados aquele laboratório, só tinha pena de não sair em glória, o João Castro, tinha-lhe tirado esse prazer com o dia de hoje, quando resolveu subir as vendas da zona, na forma mais execrável.
Felizmente tudo acabaria em breve.
Entrou em casa, e com vergonha de si…naquele dia, deu um beijo tímido ao Henrique, desejando que ele soubesse lutar até ao fim, e que em nenhum momento se deixasse apanhar nas malhas da manipulação.
Sonhador… como sempre!
Depois de lamber as suas feridas sozinho, satisfeito, jantou com o seu filho e a sua mulher.
Jantaram alegremente pescada frita com arroz de grelos, tudo bem preparado e com especial carinho, pela Henriqueta, sua mulher de toda a vida, companheira de luta, de vitórias e derrotas, e que também ela, queimava as pestanas todos os dias num organismo público, onde também ela… já pouco podia mudar…
Soube-lhe bem o jantar…e curou a azia do almoço!




4 comentários:

Girl in the Clouds disse...

Gostei do texto!! Um bom domingo!! Beijinho

Francisco Vieira disse...

Boa tarde! Bom resto de domingo! Adorei este texto. Next!!! :-)

Bjs

Sonhadoremfulltime disse...

Boa noite,
um retrato dos nossos dias.
Sinto-me como o Armando... acordo cansado.
Depois, vou continuando assim, até que passa.


Beijo

continuando assim... disse...

obrigada!! um cheirinho do livro....:)
agora acaba a saga da informação médica... por hora :)