terça-feira

Aquela "nossa senhora" que ali vês, já não sou eu.




E hoje...
Hoje não me apetece ser uma "nossa senhora" crucificada! 
Porque ali de braços abertos e coroa na cabeça, apenas deixo que olhes para mim assim...
Hoje já só me apetece que olhem para mim, sem aquela ridícula coroa de "santa" na cabeça.


Hoje, tu já não me queres olhar de maneira nenhuma.
Hoje, já nem sequer me ouves... e eu falo-te todos os dias  no silêncio das minhas palavras, que podem tornar-se no som que tu quiseres.


E tu, se calhar,  até olhas e me vês tão escondido de mim...


Assim de braços abertos, na esperança de abraçar quem não quer o meu apertado abraço.  Assim já não vou ficar.
Tu não queres, e olhas-me de longe. De tão longe , que já mal te consigo ver, muito menos te oiço.
Não falo, fico estática porque me cansam os braços , de tanto te  tentar abraçar.


E hoje, hoje vou ter que os baixar assim devagarinho, definitivamente devagar.
Para não te assustar. 
E apagar aquela coroa branca, que tão mal me fica.
Essa auréola,  que por vezes tão ridícula me torna.


Vou sair dali, daquele improvisado crucifixo que sozinha ergui para mim,
para sustentar os meus braços. Na esperança de  que quando chegasses, ainda tivessem força para te abraçar.
Quando dali me desprender , vou correr por aí  até que alguém me abrace ,sem medo.
Até que alguém me abrace primeiro, até que alguém  me segure com vontade de não me deixar cair.


Hoje,  vou tirar aquela espécie de pregos, que ali me pregam e tanto me doem.


E tu ficarás assim, olhando para nada, porque eu ali já não estarei...


lilás... com auréola pálida...


Aquela "nossa senhora" que ali vês, já não sou eu.
Talvez alguém, um dia ocupe aquele lugar que ergui para ti, e que agora deixo, para que tu o possas contemplar sozinho.


Hoje já me doem os braços de tanto te esperar. Levitando num ar, que se me tornou repentinamente tão pesado...
Hoje, se calhar,  já te podes aproximar sem medo de me encontar.



Teresa Maria Queiroz/ Maio 2009 quadro: acrílico /tela de Horácio Queiroz  http://hoalfequei.blogspot.com



  e hoje...volta a ouvir o que já me esquecia  



5 comentários:

Francisco Vieira disse...

Bom dia Teresa. Esta tua maravilhosa obra literaria, com um Q de poesia, pode ter tantas interpretacoes, que me custa opinar sobre ela.
Sinto cansaco e decepcao. Sinto magoa. Uma magoa que pode variar entre aquilo que te fizeram, aquilo que tu permitiste que te fizessem, ou aquilo que tu propria te fizeste. Esta "Nossa Senhora" que pode ter sido a "da Piedade" tera sido piedosa demais? Tera sido a "das dores"? a "da paciencia"? Tera sido demasiadamente benevolente, por muito tempo, mesmo depois de ter sentido so e abandonada na cruz? Tera sido crucificada, ou auto-crucificada?...
Tudo isto é intimista demais para ser tratado aqui, nem me compete a mim nem a ninguem opinar, mas ao torna-lo publico, deste-nos asas para voar, embora a resposta para todas estas minhas suposicoes, a devas guardar para ti.

Conselho: independentemente da maior ou menor verdade ou ficcao nas tuas palavras, EU, depois que me decido a soltar-me das minhas "CRUZ" (que ja foram varias, felizmente), para la nao volto. Reconheco que por vezes me deixo ficar pregado por mais tempo do que deveria, mas quando saio de la, saio de vez.

Um beijo para ti e da-lhe com forca, porque dos fracos e dos lentos nao reza a historia :-)

Minhoca disse...

Eu não sou de desistir, mas ha alturas em que uma pessoa tem mesmo que baixar os braços e seguir

Psiuuuu!!Sou eu! disse...

Pois partir é sempre doloroso, mas chega a um determinado momento que é mesmo o melhor e a única solução...Força e coragem!
Olha deixei um desafio para ti no meu cantinho, vai lá espreitar e se quiseres arriscar, aceita :)
Bjito

continuando assim... disse...

beijo Francisco :) só sorrio :) obrigada

continuando assim... disse...

Pssiu... minhoca...

:) nunca se desiste do que não se entende ... beijo