domingo

de costas...sem despedida


a mala feita
15 dias de formação lá em cima..

mais quarto de hotel..mais cheiro de quarto de hotel...

aquele cheiro outra vez, que não é mais do que cheiro a solidão

que eu cheirei tantas vezes...


formação;

gente ;

hotel;

presumir;

sorrir sem querer;

falar sem ter nada para dizer..

pessoas que não eram "nós"...


ia eu...outra vez

15 dias, 15 dias longe...


..aquele tempo que se pudéssemos derramávamos da ampulheta, esse tempo que não devia existir, o tempo que temos de presumir ser

..presumir ter.

..presumir atentar...


a mala vermelha feita á toa...com tudo lá dentro desalinhado ( era assim que eu arrumava as malas...sem alinho )


não faz mal quando chegar logo se vê...


Saiu com a cadela pela trela, sem dizer nada


Eu fiquei por ali ...


Esperei...mala feita

estava quase a começar o tempo...aquele tempo que eu não queria


--- vai valer a pena , vais ver é só mais um sacrifíciozinho, tu aguentas esse tempo, o que vai custar mais são as noites, com aquele cheiro, mas passa num instante ....---


continuava á espera que voltássse ...


o tempo a passar e a dar lugar ao outro tempo que eu não queria


esperava...


--- deve ter ido dar uma volta por aqui perto ---


sobressaltava-me


o sobressalto era já uma sensação familiar , já nem precisava do unto para a alma

já estava convencida que era mesmo assim, que nada estava errado...

que era eu que me sobressaltava por tudo e por nada


...e , que o permanente susto fazia parte da vida e do sentir...convenci-me disso para me tornar uma pessoa "normal" dentro de mim...

para conseguir viver comigo...


--- será que os outros notam o meu sobressalto?? não!..hehe!! eu sei disfarçar tão bem ----



a mala encostada á parede da entrada , já perto da porta prontinha a sair


sentada na sala fumava, como se o fumo me apagasse a dúvida a incerteza e o sobressalto

passei a fumar assim.... como um unto ...para a alma ...


...da "gavetinha", que eu não mandei abrir, saíam...questões que me irritavam, dúvidas que me assustavam...

a "gavetinha" abria e fechava sem eu mandar , sem eu pedir...era assim desde o princípio...



sorri

ao lembrar o dia em que lhe falei pela primeira vez nesta "gavetinha" com vida própria..

sorri

e


esperei

..................................................


tinha que ir , senão ia chegar já muito tarde, estava pronta para ir ....


não chegavam... por onde andariam..

preocupava-me com o telefone na mão

olhava fixamente ... e esperava que ele ganhasse vida também...mas ele nada!

nem tocava

nem vibrava

nem nada....


Nada


esperei...esperar já não era estranho

há muito que tinha deixado de achar estranho...


Liguei


" onde estás?... aconteceu alguma coisa...? "


(aquela pergunta irritante para quem faz e para quem ouve)


" Não nada , porquê? ...vim trazer a cadela ao canil."


"Mas..não era só para ir amanhã...??"


(pergunta idiota...)


" Era ...mas assim fica já tratado..fica já cá hoje."


" Está bem..... e .... demoras muito...? "


" um bocado, porquê?! "


" Porque eu tenho que ir para cima.... tu sabias.... e estava á tua espera , para me despedir.."


digo isto quase a medo e a adivinhar o que lá vinha , tremia mas segurava a voz !


" Não esperes. Estou aqui a falar com a senhora do canil. estou a tratar da vida... não esperes .."


" mas ... a tratar da vida a falar com a senhora do canil...??!!"


" Faz-me um favor! vai-te embora ...e não esperes! podes fazer-me esse favor??!! "


sem entender, entendendo...respondo


"está bem.... então adeus..."

"Adeus! faz boa viagem, não fiques chateada.."


.........................



desligo...com um estranho e horrível sentimento de culpa....

com a sabor azedo de quem se tinha intrometido onde não devia...

mas culpa de quê...???

intrometi-me em quê???

porque esperei...??


sentada ... com o telefone na mão

não contive a aguadilha que vinha aí, as lágrimas corriam sem pedir licença nenhuma , ardiam-me na cara ...


---- porque não veio? porque tinha que ir falar com a senhora inglesa,do canil.

logo agora ...logo hoje... porque fugiu da despedida.... ia estar fora 15 dias.... eram "só " 15 dias... porquê aquele tom na sua voz...porque estou cheia de medo....?? ---



num papel branco , escrevi um bilhete de despedida..


eu não partiria sem me despedir..eram "só" 15 dias ....mas não ia sem me despedir


depois de escrever a correr...letras misturadas com lágrimas

mãos geladas e trémulas

mãos de quem se quer controlar de quem se quer convencer que era tudo normal

mão que desenhavam uma letra que revelava todo o sentir ...

para mim sim...


será que o conseguia passar??

mãos que com palavras doces desenhavam um grito abafado



despedi-me assim...

sem beijos

sem abraços

sem sorrisos

sem força

sem carinho


despedi-me ....sem despedida



já no carro , as mesmas mãos seguravam o volante com força ...transpiradas frias

os olhos ardiam...

a cara fervia


assim viajei...

saber ..... mas quase adivinhando que tinha chegado o princípio do fim



de um final que de tão comprido , iria ser insuportável


tanta coisa que não entendia ...tanta coisa que eu tinha ainda que entender


e a mesma pergunta...

sempre a mesma pergunta que saltava da "gavetinha"....

onde é que eu errei...??


fui eu que errei ??


corri para cima...300 kms sem parar , sem ouvir, sem falar


sem nada



--- hoje não sou nada

porque ...esperei...

5 comentários:

Su disse...

como te entendo...............podia ter escrito isto..........simmmmmmmm


jocas maradas de sentires

Roderick disse...

Também detesto a solidão dos quartos de hotel.

Hoje não és nada! Ou és tudo! Ou o que desejares ser...

Maria, Simplesmente disse...

Obrigada Teresa, embora os sentimentos não sejam trapos, passando a onda voltamos... sempre com mais uma lição.
abraço
Maria

Nely disse...

Viram outros momentos que apagaram estas lágrimas, este desalento, este desamor...
O coração é forte, a alma aguenta, as lágrimas secam e um dia haverá braços abertos na despedida por pequena que seja, haverá beijos intensos de saudade antecipada, não háverá "adeus" mas um até já.
As feridas são dolorosas mas têm cura: o tempo!
Um abraço amiga.
Nely.

Teresa Queiroz disse...

e sempre o tempo... que me destesta :) :)