quarta-feira

O Piano Velho queria morrer devagar



_Já é Santo  António ! Está um calor de morrer…
_ Este ano não há fogueira aqui na rua ?
_Acho que sim, mas vamos ter que ir à procura de troncos e madeiras … não me apetece nada ,está muito calor .
_Tenho uma ideia ! Vamos pedir à mãe que nos dê o piano velho… ninguém toca piano cá em casa ! Para queimar na fogueira, logo à noite
_ Tu deves estar maluco, achas que a mãe vai nisso …?
_ Vai lá tu pedir..
_ Eu ?! A mim é que me manda logo passear …!
_Diz ao Jorge para lá ir , ele é mais pequenino, pode ser que assim se consiga . 

O piano velho dormia encostado à parede da sala há já muitos anos . Lá em casa ninguém tocava, eu ainda comecei a aprender , numa escola lá para os lados da Estrela, lembro-me que saía da aulas na Fernando Pessoa, e apanhava o 22.
Desisti ao fim de meia dúzia de aulas, pois nunca mais passava da “escala”
…..dó-ré-mi-fá-sol-lá-si-dó----dó-si-lá-sol-fá-mi-ré-dó……uma mão para um lado, outra mão para o outro ….
e nunca mais começava a tocar concertos mesmo a sério. 

Lembro-me que a professora tinha umas unhas enormes, pintadas de vermelho escarlate, que brilhavam com as luzes amortecidas da sala velha e tocavam nas teclas de marfim fazendo ruído de castanholas .

Não gostei.
Não gostei da professora, não gostei das unhas vermelhas, não gostei do ranger do chão de madeira, não gostava da cor amarelada nas portas altas , muito mais altas que eu . Não gostei do odor a passado que infestava todas as salas daquela escola . 

“Teresa! Não te esqueças que hoje tens aulas de piano .” 

Desisti.
Queria começar a tocar concertos, e por aquele andar … nunca mais !
Assim a última esperança da família, na dedicação acérrima na junção correcta das notas que soam , marteladas nas coradas dum piano, morreu.
Não morreu, só adormeceu .

 Anos e anos mais tarde, alguém viria honrar a família com um enorme talento.

_ Vai lá dizer ao Jorge .
O Jorge era muito pequenino, falava pouco e quase nunca pedia nada a ninguém . Assim como não pedia, também não dava quase nada, cada vez que lhe pedíamos um bocadinho de chocolate, passava a unha , assim como que arranha , e dava-nos o chocolate que se amassava dentro da unha …
O Jorge pediu à mãe, a mãe achou graça , e deixou !

_ A mãe diz que sim, diz que vocês são todos malucos , mas que podem levar o piano para a fogueira – falava ainda com voz de bebé com a cabeça cheia de caracóis e um  riso malandro .
_A sério?!
_ Mãe! Deixas-nos levar o piano para a fogueira ? A sério ?!
_ Sim podem levar o piano, já estou farta de ver o piano ali na sala , ninguém quer tocar , nem aprender e só me ocupa espaço . Não sei é como é que o vão levar para a rua , não cabe no elevador .

Olhámos uns para os outros , era um pormenor que nos tinha escapado .

_ Vocês não tem força para levar isto lá para baixo… tem que ir pelas escadas, e não quero que ninguém se magoe! O melhor é começarem a tirar essa ideia da cabeça
Não sabíamos como fazer, nem todos juntos, conseguíamos levantar uma perna do piano .
_ Já sei ! Pedimos à Amélia que nos ajude …

A Amélia vivia lá em casa já há uns anos, tinha vindo de Aveiro, ainda novinha, e aprendia a fazer as lides da casa com a minha mãe .
Tratava de nós durante o dia e ouvia novelas na rádio durante a noite. No quarto dela, dentro duma gaveta, guardava, religiosamente, todas as revistas do “Simplesmente Maria”.
 Ouvia na rádio e coleccionava os folhetins cheios de fotografias. Era o princípio das novelas, nem imaginávamos que, anos mais tarde, a televisão passava novelas umas atrás das outras .
Lembro-me que a Amélia chorava quando ouvia a radionovela, e falava da “Maria” como se fosse uma amiga sua.
A Amélia tinha um cabelo preto muito comprido, e era baixinha e muito forte, tinha uns braços curtos parecidos com dois troncos de árvore.

_ Agora vais lá tu pedir à Amélia , Teresa .
_ Eu?! Porquê eu ? A Amélia está a ouvir o “Simplesmente Maria”… agora não vou lá, está para lá a chorar…
_ Vai lá, que ela a ti diz que sim …
Íamos lançando assim as cartas do jogo, jogando habilmente, com as emoções dos crescidos.
_ Ela gosta muito de ti ! Tu e o Jorge são os preferidos dela
 --- dizia a minha irmã com uns olhos pequeninos por trás duns óculos de massa , que eu sempre sonhei  ter .
_ Está bem eu vou ..
_ Ó Amélia…queria pedir-te uma coisa… pode ser ? Sabes que hoje é a noite de Santo António…? Lá na tua terra, onde vivias antes, também faziam fogueiras na noite de Santo António?

Começava a “alisar terreno “, assim como quem não quer a coisa, duma forma que era tão só minha. 

_ Não Teresinha, na minha terra a noite é de São João, lá no norte fazemos fogueiras no São João e vai toda a gente para a rua , cantar e dançar , e dar com os alhos porros e os martelinhos na cabeça uns dos outros … Uma vez lá na terra ………………..

------ e começava a contar uma história interminável, falava da família , dos irmão, da terra, da gente que lá vivia; e nem tinha quase o que comer, das hortas, dos campos , dos legumes, das vacas e porcos que passeavam pelos terrenos , assim…à solta -----------

Eu ouvia com muita atenção, e muita paciência, esperando o momento certo, tinha que lhe dar espaço na conversa, tinha que levar a “água ao meu moinho” .

_ Então também fazem fogueiras grandes, Amélia, que giro que deve ser…. Sabes, a mãe deixou queimar o piano da sala, na fogueira de Santo António, esta noite…
_ Deixou?! A tua mãe deixa que queimem o piano ?!
_ Deixa ---- sorria-lhe --- e precisávamos de levar o piano lá para baixo….mas nós não temos força , ainda somos muito pequenos, queria pedir-te que nos ajudasses…pode ser Amélia?
_ Vocês estão todos malucos… mas …está bem eu vou tentar, mas não vos quero cá nas minhas saias a atrapalharem!
_Boa ! Dá cá um beijinho, Amélia

Abracei-a com muita força, tinha um pescoço forte, e eu quase que não o conseguia envolver nos meus braços,  corri para ao pé dos meus irmãos .

_ A Amélia disse-me  que levava o piano lá para baixo… sozinha!!
_ Sozinha!! Não vai conseguir… ----disseram quase em coro .

E heroicamente, com uma força descomunal, a Amélia carregou  o piano ás costas, sozinha, pela escada abaixo , desde o quarto andar até à rua
De tão velho, o piano ia perdendo peças pelo caminho, nós íamos atrás, devagarinho a apanhar os destroços de madeira que se espalhavam pelas escadas , assim como sabíamos dava-mos apoio mural e rezávamos a todos os santinhos para que corresse tudo bem , e para que a Amélia , com a sua força “bruta” , não caísse pela escada abaixo embrulhada em cordas dum piano velho.

A meio da tarde, com o piano já na rua , preparávamos o acontecimento. Chamámos toda a gente que morava lá , na Cidade da Beira,  para nos ajudar a desfazer o piano antes de o por a assar  na fogueira.
E todos, sem excepção, lá na rua, ajudaram com martelos, serrotes e pedras a desfazer em bocados de madeira um piano que ninguém, lá em casa,  sabia tocar.

E o santo António, nessa noite, viu a maior fogueira feita em seu nome, na nossa rua, lá para o meio dos Olivais …

Saltávamos  através de chamas enormes , ouvíamos um crepitar tão diferente.
As cordas esticavam e partiam-se com o calor e soltavam umas notas chicoteadas,  desesperadas.
A madeira velha queimava devagar, o veludo dos martelos do piano… demorava a queimar, e ia escurecendo o seu tom pardo com o chamuscar da fogueira .

Nem me queria aventurar a saltar umas chamas tão altas, nunca tinha visto uma fogueira assim . Era a maior de sempre , durou horas e horas , durou a noite toda , o piano velho queria morrer devagar .

Quando me enchi de coragem e saltei por entre as chamas , ouvi  um piano a tocar…

Teresa Maria Queiroz

in "Histórias dos nossos Olivais "

3 comentários:

Sonhos & melodias disse...

Oi Teresa,
Mas que história mais linda! Consegui vislumbrar toda a cena em minha cabeça. Texto bem imagético. Parabéns!
Bjs

S* disse...

A melodia do piano encaixa na perfeição nesta bela narrativa.

Vitor disse...

Histórias que nos transportam para as mesmas,fazendo arte das palavras...e com gosto aprimurado pela escolha de tal piano!

Bj*