domingo

ALICE SEM SENTIDO Confortably Numb capitulo 17

Passou o Inverno e a Primavera começava ali, na sua cidade, na cidade de Alice.
Tudo se pacificou naqueles meses e tudo podia parecer querer seguir um caminho qualquer, naquela casa fria da qual Alice nunca aprendeu a gostar.
André mostrava-se mais confiante de dia para dia,finalmente parecia querer começar a acreditar em qualquer coisa..
Alice sentia que a batalha não estava ganha e nem imaginava se alguma vez podia vencer o que quer que fosse.Já não sabia pensar, exausta queria terminar de se lembrar.
Alice estava feliz, agora perto do seu filho. Encontrava-se com ele sempre que os dois queriam e podiam, todos os bocadinhos lhe serviam para matar as saudades encafuadas dentro duma misteriosa "gavetinha".
Vasco ia frequentemente a casa de Alice e nunca se sentia totalmente confortável, embora bem tratado e admirado por André, sentia que invadia um espaço que não era o dele.
Nada passava despercebido a Alice, sentia que o seu filho não queria incomodar aquele mundo onde ela se movia, que também ele notou estranho e frágil.. 
desesperava-se com o que não tinha cabimento em ser, o seu filho teria que se sentir na sua casa, nunca lhe fez sentido que assim não fosse.
Alice ia fazendo das tripas coração para atender a todos, distribuiria a sua atenção a todos e como sabia.Continuava exausta, e não pela primeira vez, notou um ciúme contido e quase irracional que André demonstrava em relação ao Vasco.Agora mais perto, tudo era mais assustador.
Não compreendia, André adorava o seu filho, e tantas vezes tinham os dois conversas imensas, André encantava-se com Vasco numa estranha mistura de sentires.
Era desconcertante que André não quisesse partilhar tudo. Queria e não queria, tolerava e não tolerava. E dentro de si próprio depois de tudo e sem razão de nada, vencia sempre a intolerância que o defendia do resto do mundo.
André não sabia lidar com a proximidade de Vasco nas suas vidas, não se lembrava de ter recebido assim um amor.Queria esquecer que nunca o teve, da mesma forma que Alice o dava ao seu filho, numa infância que passou enterrado numa solidão e carregando para sempre uma falta de afectos.
E todos nós, edificados pelo passado, seremos sempre o que o passado ditou.
Quase sem querer e muitas vezes sem mesmo se aperceber, André tinha ataques de fúria, agora já tão perceptíveis a Alice.
Não sendo, nunca , claro no que dizia, misturava-se em inúmeras dualidades de quereres e não quereres, confundia-se a ele e já não surpreendia Alice.
Alice sabia que  amava André mais que a ela própria.
Amava o seu filho acima de tudo e todos, e só por ele Alice conseguia destruir tudo o que algum dia pensou ter construído .
Os dias foram passando, André reclamava bruscamente, e cada vez com mais frequência toda a atenção de Alice.
... e um dia, sem Alice esperar, disse-lhe toldado numa espécie de loucura, que simplesmente a tinha deixado de amar... Seco, não vacilava no que dizia tão friamente.
O amor de André por Alice tinha acabado, assim como acaba uma estação do ano; como acaba um filme sem final.
Pura e simplesmente, já não gostava de Alice e nem sabia precisar no tempo quando tinha começado a sentir que já não a amava. Dizia-o duma forma exagerada e não sentida. André nunca soube o que sentia, olhava para Alice com um olhar escurecido pela confusão, desprovido de emoção murmurava palavras desentendidas
Alice ouvia, nervosa tentava engolir , a custo, aquele som que lhe chegava .Desta vez, não lhe chegam forças para pensar em nada, desta vez não sabia perceber o imperceptível.
Alice, em silêncio, aceitou. Muda, deixava cair as lágrimas que já sabiam o seu caminho salgado, desenhado na sua cara ao longo de anos .
Nada perguntou. Nada comentou.
Calada por soluços mudos, Alice não falava, só ouvia desejando ensurdecer de repente, para não enlouquecer.
Desta vez nada pediu, nada disse. Saiu sem saber se voltaria, não querendo pensar na certeza dum final anunciado. Um final dum princípio que nunca chegou a começar.
Alice saiu e não voltou, desejando com força que André a chamasse outra vez, simplesmente não voltou.
Alice não voltou e André nunca a chamou..
Muitas vezes, Alice acreditava que André a podia chamar a qualquer momento, só porque André continuava igual a si próprio.
Já sozinha, numa outra casa, num andar alto num bairro qualquer de Lisboa. Uma casa que Alice encontrou à pressa, mobilou à pressa, uma casa que tinha  pressa de acolher Alice na sua tristeza e solidão.
Essa mesma casa, ouviu silenciosamente todos os gritos de desespero que Alice emanava dos seus olhos. Fixava a parede velha e branca, sem pestanejar olhava aos gritos para lá do que conseguia ver.
Alice guardou sempre todo este sentir só para ela, porque sabe que nunca ninguém sentiu assim.
Sozinha no andar alto de Lisboa, Alice via a ponte e as luzinhas do outro lado do rio Tejo, desta vez do lado errado.Depois de tantos anos, agora via-as do lado de cá.
Reparou que aquelas luzinhas já não a faziam sonhar e que já não a obrigavam a sorrir mesmo sem querer.Olhando o rio, sentiu que nunca mais iria desejar que ali ancorasse um barco sem vapor que lhe trouxesse um pirata de água doce, vindo de um lado qualquer.
As luzes tinham agora um brilho diferente, e a Lua ...essa...escondia-se de Alice porque já não acreditava naquele amor.
A Lua também se desiludiu com toda a esperança que tinha ensinado a Alice, envergonhada escondia-se atrás das nuvens, sabem-do toda aquela história , nunca mais queria aparecer. 
Mas Alice sabia melhor que ninguém , que nunca se perde a Lua.
Sozinha, olhando tudo [a sua volta, decidiu que nunca mais queria ficar triste, e sorrindo chamava a sua Lua , dizendo;lhe para n]ao ter medo dela.
Alice , mesmo sem querer, continuava sempre assim
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CONFORTABLY NUMB

Por vezes não faz sentido nada do que sentimos.
Mas falo do grande amor da minha vida…que de bom, terá o dobro do que relatei aqui.
Relatei o pior, falo dele assim com esta crueza.
Não salvei o que, se calhar , nunca tinha existido em pleno.
E por isso mesmo, nada havia para salvar.
Não salvei esse amor…não guardei o que mais queria.
Não pensei em mim, não o sabia fazer, desaprendi… quase nunca,  pensei em mim.
Eu não precisava de nada, eu só tinha que salvar não sei o quê..
Sabia o que fazia. Só não sabia o quanto tudo isso me destruía.
E ao parecer tão ridículo, só lhe podemos mesmo chamar de amor.
---gosto de acreditar que sim…que é amor o que sinto---
Em “seu” nome aceitei tudo, aceitei a mentira com igual consciência , deslealdade e traições de ânimo leve .
Aceitei manipulações, perfeitamente consciente que as estava a aceitar.
No fundo, neste sentir tão complexo, eu só quis dizer que o amava, que não o compreendia… e que sempre o amaria.
Escrevia-lhe, para o ir lembrando que eu ainda existia, para lhe dizer o quanto me tinha feito feliz…mesmo aos bocadinhos.. e o quanto conseguiu a ajudar a destruir toda a minha felicidade.
Escrevi centenas de letras , que não tinham resposta .
Assusta, porque dentro do meu peito, nunca tinha sido asssim.
O meu peito empedrou.
O meu peito calcinou
E o que eu me tinha perdido em mim, neste constante sugar de sentimentos… nunca mais me levantaria do chão.
Achei que tinha perdido tudo, sabia que o tinha perdido não sabendo se alguma vez o tinha tido.
A frustração de não ter conseguido foi enorme e arrasadora.
Mas com ele, será sempre impossível…impossível ama-lo…
Impossível ser de outra maneira.
Acho que sim, que me amou, que me ama…por momentos… não seguidos, inconstantes, sem qualquer continuidade.
Talvez um amor diferente do meu, nem mais nem menos, nem nada.
Porque os amores não se medem, não se arquivam, não se nominam, não nada… só se sentem , sem nome …
E eu só senti, desde o primeiro dia .
Desde o primeiro beijo onde vivi vidas inteiras.
Andei numa viagem sem paragens, e quantas vezes os seus olhos , verdes e alagados, quantas vezes o traíram.. quantas vezes eu não quis ver, só porque me confortava a cegueira.
Nem sei se ele reparava nisso…
Assustei-me comigo, e esse é o pior susto que há. Achei que estava incapaz ,de mim mesma, quase cruzei a linha só para o poder ir buscar…
Eu tinha-me acabado.
Saltava-me lágrimas a jacto, sem as suas mãos para as aparar…
Água salgada, que escorria por tudo e por nada.
Tendo o amor como causa, durante tanto tempo , tentei não me afundar. Andei muito tempo sem bóia , a ir ao fundo e a vir à tona para respirar e mergulhar outra vez sem medo.
Pena do que não foi… já não quero ter.
Seria pena?
Talvez fosse só amor.
Fiquei triste, e nesse dia decidi que nunca mais me sentiria assim. Como se fosse possível apenas decidir…
E nos seus olhos, estampava-se o desamor por tudo.
Recebendo-me à porta, à porta da nossa casa… à minha terceira tentativa , abriu.
Das outras vezes não abriu, escondia-se lá dentro.
Depois de ter acompanhado, tão perto, esses picos de semi-loucura, nunca pensei que a sua reacção fosse só desprezo por tudo, por ele…por mim… escondia-se no seu desprezo.
Manipulava-se sem olhar a nada. Tinha aprendido que era sempre assim que se defendia, com medo de tudo, manipulava sempre e enrolava-se nos seus próprios fios.
Depois de eu tentar entender todas essas bizarras reacções, que nos picos de euforia eram infames, execráveis, irresponsáveis, desmedidas, hipócritas e egoisticamente desumanas .
Depois de tudo..já não havia nada
Eu esperava que um dia, voltasse a dizer que me ama.
E ele, como um enorme balde de gelo, simplesmente não abriu.
Mesmo sabendo de mim, mesmo ouvindo as súplicas…
Eu tinha vontade de conseguir arrancar o meu coração, atirá-lo para longe de mim.
Não queria falar comigo, mesmo ouvindo o estalar do meu peito e sentindo as queimaduras do meu coração.
Toquei à porta, não respondeu..
E eu sabendo que ele continuava a afogar-se em desespero..
Passei tanto tempo a pensar no que fazia, no que pensava.
Sabia que ninguém me percebia, e que não era necessário que alguém percebesse. Ninguém me sentia.
Tudo sentimento .
E afinal o que é isso de merecer ou não merecer?
Acho que sempre o soube, e sempre arrumei esse saber para os confins do meu sótão, arrumando tudo nas minhas mágicas “gavetinhas”.
Sabia que não me merecia, e ele disse-mo tantas vezes. Era sincero quando o dizia.
…e eu pensando porque não o poderia merecer…
Pensei não conseguir viver se não segurasse a sua mão, se não olhasse com os seus olhos, se não respirasse o mesmo ar.
E sabia que ele, não queria ser quem não sabe.
Nem ele sabia o que era, nem ele sabia quem era.
Tentei encontrar razões que não existem, ele não sabia o porquê de nada.
Com indiferença--- eu não existia.
Nunca o tinha visto tratar assim ninguém. Cruel, foi cruel.
Deixou de me comunicar…deixou-me da pior forma possível.
Envolto numa loucura, um olhar desigual. Imperceptível, horrendo…
Mergulhado na sua incoerência, disse-me que já não me amava… não me queria mais, nem sabia precisar o tempo… não sabia quando tinha chegado a essa conclusão, se calhar tinha sido só agora, só naquele momento.
Vivi com André anos à espera que o tempo me deixasse compreende-lo, embora saiba que devo ser eu a pessoa que o poderia fazer melhor, ainda hoje não o posso compreender..
---- aquelas “gavetinhas” que podemos arrumar, que pensamos poder, a sua “gavetinha” que , ainda hoje , abre e fecha sem me pedir licença----
Eu só não consegui entrar dentro de André e “arrumar” tudo. Arrumar tudo o que o afligia, arrumar tudo o que estava desarrumado há décadas, tudo o que nunca foi arrumado…sempre assim esteve…
Não podia fazer muito mais, já na Primavera, eu tive consciência de que mais nada poderia fazer.
Saí daquela casa depois do último Inverno.
Saí em Abril.
Cambaleante, ele passou a adormecer, sem mim, atordoado. È sempre o caminho mais fácil, aquele que mais apela ao acto imediato. Cambaleava, atordoado , depois duma meia ou duas méis garrafas de qualquer coisa…
O reconhecer tudo o que se passava , sem razão…
Na primavera eu acreditei que tudo podia melhorar, por tudo e apesar de tudo.
E assim se passaram meses. Esses meses em que vivi para o segurar, onde caminhei com força para não o deixar cair.
Eu achava que o tinha que aquecer de todo aquele gelo em que se embrulhava..
Eu tentei encontrar calor, só para aquecer tudo…eu achava que era eu que o tinha que aquecer.
André estava gelado.
Não posso saber, não pensei que tudo fosse tão aflitivo, eu não sabia nada.
Sentia que André estava perto dum final qualquer…naqueles meses de frio…
Não sei exactamente qual o seu sofrimento, não o sei medir, dentro daquele espécie de semi loucura que o acompanhava desde sempre.
Eu sorria, limpava-lhe o turbilhão de lágrimas que lhe corria pela cara e me molhavam as mãos, eu amparava-lhe as lágrimas, sem nada perguntar.
André procurava em mim um rastilho para conseguir seguir, senti –o quase todos os dias desse último Inverno.
Dizia-me , mergulhado numa inexplicável infelicidade, que só me tinha a mim.
Que não tinha mais ninguém neste mundo, que estava sozinho, que sempre assim esteve…e que eu era a única alegria que ele ainda conseguia ter.
Pedia-me, entre soluços, que eu nunca o abandonasse, acontecesse o que quer que fosse…
E eu, tal como o faria hoje, prometi-lhe que sim.
Lembro-me que agarrava as minhas mão com uma força enorme….mais uma vez eu acreditava, e sentia que , compreendendo o que se passava com André, seria mais fácil lidar com tudo aquilo em que me envolvi.
André, nas suas fases baixas, quase se matava de tanta inércia e de tanto desacreditar. Chorava com medo que eu o abandonassem, chorava com medo de si ..
Não é fácil amar alguém que não se suporta a si próprio.
Recordo esses meses , e lembro-me de ter tentado fazer quase tudo, sem saber o que seria mais certo fazer…
Ainda estará , afundado numa espécie de demência que um dia esteve disposto a aceitar.
Suplicantes… aqueles olhos que não chegavam para me dizer tudo o que sofria…
Doentios, baços, alagados… vermelhos de choro e desespero.
---- Tinha passado todo o dia ali, inerte. Encontrava-o, invariavelmente deitado na cama, o quarto submerso na escuridão que o acompanhou durante todo o dia.
 Antes de abrir a porta de casa, eu sabia como o ia encontrar, por vezes congelava. Tantas vezes congelava por dentro e me aquecia por fora só para lhe dar o calor que ele precisava---
Aceitei o seu amor quando mo queria dar, agora, André suplicava-me …
E eu, mesmo desesperando, nunca desisto daquilo que não compreendo…

( continua…)

 





4 comentários:

N.A. disse...

Complicada muito complicada atua história

direitinho disse...

É uma história muito complicada mas há tantas coisas que nunca conseguiremos entender.
Será que um dia esse homem aprende a amar e respeitar essa Alice...

Pena disse...

Olhe, Fabulosa Amiga:
Escreve com uma magia fluída doce e perfeita.
Cada vez, que entramos na história é com uma delícia imensa que começamos a abrir carinhosamente.
É perfeita como escritora e não me arrependi de ler.
Parabéns sinceros. É brilhante.
Quanto ao final, eu deixava os leitores atraídos pela sua beleza de escrita mesmo assim, ou arranjava outro amor ou, ainda, uma reconciliação com André e a Lua.
Magistral.
Beijinhos amigos de respeito imenso pela sua gigante pessoa.
Com respeito e estima.
Continue sempre.
Sempre a admirá-la e ao que é, uma terna e maravilhosa escritora de sonho.

pena

Ricardo Calmon disse...

Escreves e brincas com as letras,assim como eu,forma de viver essa,de escribas amantes da vida e da amistad!

viva la vida!