domingo

ALICE ESPERAVA capítulo 12

O fim já tinha começado desde um princípio que nunca existiu, Alice esperava por um recomeço que se calhar nunca aconteceria. E só assim, imaginando esperar, conseguia nunca desesperar.
Alice viveu meses sozinha naquela enorme casa de Lagos, esperava por André mesmo sabendo que poderia nunca mais voltar.
Imaginava-o chegando e poisar outra vez, sem barulho, na sua enorme varanda. 
Desta vez a Sul de si, Alice esperava o seu homem alado coberto do mesmo mistério infindável, ficaria ali sentado olhando o final do rio, acariciando com o olhar os cisnes que por ali andavam e que nunca se separam. Só esta fértil fantasia conseguia fazer com que Alice voltasse a esperar.
Não sabia onde estava André, soube que tinha ido para uma casa solitária naqueles montes, perto do canil barulhento para onde um dia tinha levado a Beky.
Alice sabia muito pouco, adivinhava que a inglesa curtida do Sol estaria dentro de todo aquele absurdo.
Andava pela sua casa como um fantasma que nunca sabe onde parar, Alice andou assim todo o Verão que começava agora.
Flutuava por ali até o cansaço chegar e que lhe surgia sempre fora de horas e sem aviso.Disfarçava os dias gigantescos mergulhada num trabalho qualquer, trabalhava mecanicamente, de noite escrevia tudo o que lhe enchia a alma conversando , e trocando silenciosas impressões com a sua enorme Lua amarela.
A Lua entrou todas as noites daquele verão, pela sua varanda. Fazia-se convidada, e consolava as lágrimas de Alice só com a sua brilhante luz amarelada.
De vez em quando, logo ao início de ter partido sem saber se voltaria alguma vez, André voltava para momentos duma espécie de entrega e amor, cada vez mais curtos, desconformes , incoerentes e repletos duma enorme inconstância misturada com súplicas no seu olhar alagado.
Alice estranhava-o, não o reconhecendo sabia que nunca o poderia prender a si. 
André lançava a âncora , cada vez mais forte, cada vez mais pesada. Como um afincado pescador, voltava ao porto para enterrar a sua âncora cada vez mais fundo.
Alice sabia o medo que o invadia, medo de tudo, medo dele e do que desconhecia. Como um aventureiro destemido, lançava-se por terras estranhas estranhas e convencia-se que as poderia desbravar.
André querendo mostrar uma valentia que não tinha, desfragmentava-se dentro de si mesmo.
Alice exasperava-se dentro das enormes paredes que isolavam aquela espécie de palácio desencantado onde agora vivia.
André tinha tinha partido dali sem ela, tinha ido tentar voar para um lado qualquer e deixou-a ali, entregue a si própria. 
Puxaria a corda da âncora até que as suas mão se partissem, André sabia disso tão bem .
O Verão era demasiado quente...
Alice isolava-se de tudo e todos e nada contava a ninguém, porque sabia que nunca ninguém entenderia nada desse amor, porque julgava saber que só ela entendia André, e que André iria precisar dela para viver o resto da sua vida. Isso lhe sussurrava André ao ouvido, entre suspiros e beijos, sempre que resolvia voltar , por momentos, e enterrar o seu ser cada vez mais fundo dentro da alma de Alice.
Só ela pensava ter o dom da compreensão daquilo que nunca era perceptível em André , aos olhos de ninguém.
E por ali foi ficando, sentada num chão frio, que a gelava mas que a fazia sentir qualquer coisa mais do que só aquilo que lhe saltava directamente do seu interior  revestido com a sua pele quase insensível Alice precisava sentir frio, precisava sentir ... só porque o sentir que não controlava lhe era insuportavelmente doloroso. E por isso se sentava no chão gelado, querendo sentir aquele frio que podia dominar.
Alice pensava nos dois, pensava em André e na Beky, que desde aquele dia que foi para o canil levada por André , nunca mais tinha visto.
Nunca teve coragem de definir nada, de perguntar nada, e assim viveu meses angustiada em definições que não encontrava.
Passava a sua angústia, os seus medos e os seus desejos de futuro , para folhas de papel branco. 
Muitas vezes amachucava folhas escritas, furiosamente, assim como quem amachuca a alma de alguém, ou como quem quer desistir de transportar consigo uma alma que já não sabia compreender. 
A sua alma já não lhe contava segredos.
E foi nesta altura de profunda solidão que alguém lhe contou uma história que Alice já se tinha imposto esquecer. A história da americana da escola de línguas, a Roberta ( lembrava-se do nome).
Caiu-lhe tudo no colo, sem Alice ter pedido e mesmo sem ter querido saber.
A Roberta tinha , de facto, sido alguém importante na vida de André. Tão importante, ao ponte de há já alguns anos atrás, ter cruzado o oceano sem certezas de nada, movida pela força que tinha ouvido  nun grito mudo e ensurdecedor. 
Correu atrás dum amor prometido, correu atrás de que pensou ter que salvar.
A história repetia-se... 
Chegou ao Algarve com os seus dois filhos, vinda duma pequena cidade da Florida onde André a tinha visitado uma vez, depois de vários gritos calados e disparados em teclas dum computador qualquer.
Roberta veio sem medo, para viver o seu amor, o amor de André. Agora estava sozinha, vivia em Faro com os seus filhos, André´nunca viveu com Roberta. Aparecia e desaparecia depois de lhe encher o coração de promessas e amor fingido.
Abandonou-a, voltando depois para a poder abandonar outra vez. E desde sempre mantia os fios que um dia poderia ter que segurar outra vez.
A história era só isto tudo. E Roberta ,tal como Alice, só tinha querido acreditar num amor.
Alice compreendia agora o olhar gélido de Roberta, que na altura nada lhe dizia e hoje lhe dizia quase tudo.
Alice nem se irritava por André nunca lhe ter contado nada, nem queria saber se tinha sido ou não importante na sua vida, toda aquela história era demasiado semelhante para Alice . 
Assustou-a e repudiou-a asim que conseguiu não pensar mais.
André pouco ou nada lhe contava da sua vida, tudo tinha que ser uma descoberta constante e cansativa que Alice levava a cabo quase na perfeição, e que invariavelmente a deixava arrasada, e sem saber gerir o que sentia. Julgou ter chegado aos limites da loucura, sozinha assustava-se consigo não quereno assustar mais ninguém, calava-se e isolava-se do mundo.
Sentia quase todos os dias que estava a ponto de cruzar aquela ténue linha branca, aquela que separa o real do irreal e que confunde o visível do que não se deixa ver.
Alice esteve quase lá...
Ficava noites inteiras olhando a Lua amarela, aquela preciosa Lua que sabia todas as suas histórias de cor, que passou a conhece-los tão bem aos dois, depois de noites inteiras de conversas mudas.
Alice conversava coma a sua convidada nocturna, porque só ela a sabia ouvir sem falar.

Assim continuava, sem nada querer julgar e com a certeza que não conhecia quem amava. 
Continuava presa à espera que um dia qualquer André a chamasse outra vez. Qualquer coisa dentro dela lhe dizia que iria ser assim.

Alice esperava.

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A ESPERA

Já tinha passado mais duma semana, André não me dizia nada.
Já não contava os cigarros apagados no cinzeiro, companheiros da minha longa espera.
Vivia os dias sem pensar no tempo, esperando...
Esperava qualquer coisa que eu acreditava que sempre viria, quando o tempo assim o mandasse.
Telefonemas não respondidos. Mensagens sem resposta. 
Desde que se foi embora , porque podia, eu alimentava-me da spera 
As suas palavras invadiam a minha cabeça 

"VOU PORQUE EU POSSO!"
 
---- desrespeito ...fuga?---

Sem respostas para nada, esvaziava a cabeça sentido o frio do chão em que me sentava.
Saíu daqui sem nada, sem roupa... sem dinheiro...assim...só com uma bolsa de mão, sem aviso prévio, sem nexo...
A casa enorme, vagueava por ela todos os dias como um expectro.
As noites de verão entravam-me pela enorme varanda , sem cortinas que lhes impedisse a passagem.
As gaivotas visitava-me ao fim da tarde, e eu fantasiava com elas, perguntava-lhes como sabiam voar.
Convencia-me que nada tinha acabado, que tudo aquilo poderia não ser nada!
Não queria ouvir ninguém, ninguém , nunca perceberia André.
Ninguém poderia saber o que eu sentia , só porque não o sentia como eu.
A sua voz distorcida nos meus ouvidos:

"VOU-ME EMBORA! DEIXA-ME EM PAZ!"

Aquela voz que não parecia a sua voz, o que lhe estava a acontecer? Todos os dias eu adormecia sem respostas.
Perguntava à Lua, ela ouvia-me pacientemente, e não me respondia. Conseguia vê-la sorrir-me...
Os dias passavam , hipnotizada pelo trabalhos, deixava os dias passar... Disfarça Alice...Disfarça!
Perguntando-me tudo e não sabendo nada, tentava comunicar quase por telepatia..
Sabia que André não estava bem.
Aparecia-me de repente, jurava que me amava
Chorava e desaparecia outra vez...
Não desistas Alice, não desistas nunca do que amas, tudo tem uma razão de ser...
O André não é esta pessoa que te aparece aqui de vez em quando, e se evapora como um relâmpago ...que ilumina e depois deixa tudo numa densa escuridão.
Algo se passa---- convencia-me do que não percebia.
Mais uma tentativa

SMS:
"Posso ver-te André?"

Algum tempo sem resposta, um tempo incontável...
e quando já tinha desistido de esperar respostas ...

SMS:
"Se vieres a Londres , sim"

Confusão---- a minha cabeça a cem à hora, carrossel, montanha russa que não se trava...

...tanto que eu esperei por uma resposta, e agora...sem entender... 
Mas saiu só com uma pequena bolsa, não cabia mais que uma escova de dentes...sem roupa...sem dinheiro...
sem nada!

Li e reli... "Se vieres a Londres, sim!"

O que estaria ele a fazer em Londres?... para quê?---- como? com quem ?
Salta-me o canil à cabeça, com toda a sua barulheira ensurdecedora, a inglesa de boca cortada à faca! Ele tinha estado numa casa qualquer lá para os lados do canil, no meio daqueles montes.... onde me contava que acelerava destemido, montado na sua mota e sem medo de morrer...testava os limites...e eu embasbacava.
"estou aqui a falar com a Linda! estou a tratar da vida."
Quando saíu de casa foi para lá.
Tudo se encaixava de repente, e tudo se soltava no momento seguinte. Puzzle com peças soltas, peças perdidas...
Porque me preocupei todo este tempo? perguntava-me quase com raiva descontida.
Deve estar bem, alguém o ajudou a chegar a Londres.
E eu contei todos os tostões, só eu... sozinha como já me habituara
Não pensei em mais nada, só queria saber se estava bem, o que estava a fazer...e mais que tudo se voltaria alguma vez...
Porque é que só me preocupava isso mesmo? ...se voltava?
Depois de tudo, depois de tanta coisa, eu só me preocupava com isso mesmo. Se voltava.
Tinha que haver um motivo, para mim já me chegava um motivo qualquer.
Liguei
Atendeu.
Explicou-me, com uma voz doce, que ía fazer uma viagem. A viagem da sua vida. Ou fazia ou morria.
Disse-me...
Depois de me explicar quase nada, pediu-me toda a ajuda que eu lhe pudesse dar.
Eu queria encontrar razões naquela sua necessidade de fugir, não sei de quê...nem de quem, e sem perguntas... nem o avisei que ninguém consegue fugir de si próprio.
Ali estava eu, para o que desse e viesse, para tudo o que fosse preciso.
Tinha que entender... pensei que a minha felicidade dependeria sempre da felicidade dele.
Longe ou perto, com razão ou sem ela. André fazia-me tanta falta.
E dali de onde estava, de Londres, André partiria para o outro lado do mundo. Numa expedição de mergulho, rumava para as Filipinas, nem sabendo o que lá iria encontrar...
Eu dizia perceber. Eu percebia tudo sem entender quase nada.
Tentava apanhar a minha cabeça e pô-la no seu lugar... a cabeça fugia, eu corria atrás dela, eu encontrava razões irracionais para justificar aquelas bizarras atitudes de André.
Eu não podia desistir de tudo. André precisava de mim... esperava a minha ajuda.
"Só tu me podes ajudar minha querida, Alice...eu não conto com mais ninguém..."
Eu estaria para o ajudar naquela aventura que não era a minha.
Esquecendo-me de mim, cresciam cigarros no meu cinzeiro a cada hora que passava...
Perguntava à Lua o que fazer, e a minha Lua apenas me sorria com um sorriso amarelo.
.... o amor, dizem, faz destas coisas...

(continua...)


24 comentários:

Vitor disse...

Cá estou,sentadinho a ler...e agarradinho à "nossa" Alice...entre páginas dá um saltinho ao "Outro lado",é que de ti a opinião é mais valorizada do que vou escrevendo.

Bj*

Vitor disse...

Cá estou,sentadinho a ler...e agarradinho à "nossa" Alice...entre páginas dá um saltinho ao "Outro lado",é que de ti a opinião é mais valorizada do que vou escrevendo.

Bj*

continuando assim... disse...

obrigada vitor :)

já la´fui e comentei

e que honra essa!!! lol
bj

Inês Dunas disse...

E eu ca vou continuando assim... presa à Alice!

Rotiv disse...

Pronto para voltar e ler e ler :)
Um sorriso :)

Leonam Souza disse...

Quero agradecer a visita que visestes a mim. Estou aqui retribuindo, caminhando ávido para encontrar os meandro da tua história, aqueles que vão me levar a verdadeira cena, ao verdadeiro motivo da tua emoção.....Ainda não achei e vou perseverar na busca. No momento só percebo que "a história era só isto tudo. E Roberta ,tal como Alice, só tinha querido acreditar num amor". Eu sabia, eu sabia que o amor estava por aqui. Já estou seguindo este teu lindo blog e espero que estejas sempre retornando ao meu. Um forte abraço e que a brisa do outono chegue a ti suavemente, docemente como um beijo.

Maria Valadas disse...

Venho agradecer a sua visita ao meu " pequeno mundo", dando-me a oportunidade de conhecer o seu.

Já me coloquei como sua seguidora
para iniciar a leitura da história de Alice,

Agradecida pelo aviso, acerca das Editoras, mas já publiquei em três e conheço os meandros que as envolve.
Nos meus dois últimos livros, nem um euro saiu do meu bolso. Tudo por conta da respectiva Editora.

Beijo,

Maria

Pétala disse...

"...procurando justificativas irracionais..." não te disse que estou ficando irritada comigo mesma? Quantas vezes fiz (e faço) isso? Acho que ler tua história pode ajudar outros no processo de desintoxicação amorosa.

Beijos e pétalas.

anad disse...

Continue a escrever sempre. Nós gostamos.
Anad

Rita disse...

Realmente esta história "enfeitiça"... Tem o dom de nos prender e de nos fazer ficar com pena cada vez que lemos "continua"... Dá vontade que o "continua" não existisse e pudesemos simplesmente "devorar" a história até ao fim!...

Parabéns =)

Beijinhos

Rita

Hellag disse...

para mim..."começando assim", vou "recomeçar" mais vezes ou "continuar assim"...qual menina bem comportada, sentada, quase imóvel, sem se deixar distrair pois está hipnotizada com as palavras! muitos parabéns, até breve :)
(grata pela visita, adorei as suas palavras...:))

Valéria disse...

Obrigada por esse despretensioso prazer, Alice já faz parte dos meus dias.

BeijooO e volto!

Bloguinho da Zizi disse...

Estou te seguindo desde o começo.
Parece que sou eu vivendo a história, de tão envolvente que é teu jeito de escrever.
Estou adorando.

Quando puder, se quiser, tem um selinho especial que ganhei e senti que tem que ser teu também.

beijinhos e gratidão

Joanne disse...

Gostei muito do seu blogue :) Bastante intenso ;)
Continue
beijoss*

Joanne disse...

Gostei muito do seu blogue :) Bastante intenso ;)
Continue
beijoss*

Mar Arável disse...

Esta Alice promete

muita poesia

FoRÇA

BJ

Celina disse...

Hoje estou sem tempo para ler um texto inteiro (mi disculpi), mas prometo que logo que a escola permitir venho aqui ler tudo tudo, já que o que li me pareceu tão interessante. Também eu adoro escrever e por isso apoio todos aqueles que desta forma corajosa mostram ao mundo o que da cabeça (coração?) lhes sai. Parabéns! :D

Bia Maia disse...

Que delícia este teu blog!
Que bom cair por aqui e no mei de sua Alice!
Estarei lhe seguindo então, pois fiquei com vontade de quero mais!

Um beijo e sinta-se desde já convidada à estr lá em meu cantinho, onde escrevo tudo o que tenho vontade, as minhas verdades, com muito amor e paixão!

Um beijo!!
Parabéns por seu blog!

Bia Maia

http://olhardentrodosolhos.blogspot.com

Ana Martins disse...

Boa tarde,
algo me diz que já aqui estive, mas os blogues são tantos que ás vezes acabamos por nos perdermos sem sequer darmos conta disso.

vim agradecer a visita e prometo voltar , pretendo ler a história da Alice mas do princípio.

Beijinhos,
Ana Martins

direitinho disse...

Só agora me foi possível vir retribuir-te a visita.
Esta história é encantadora.
Voltarei para rever os próximos capítulos.

Mônica disse...

Estou meia sem tempo de ver an ovela.
Vou ver outra hora.
irei dia 17 de abril para Portugal
Com carinho
Monica

Sid disse...

O bom e "velho" Pink Floyd. Gostei!

continuando assim... disse...

Sid: Pink Floyd ...tinha que ser!! por todas as razões .) bem vindo!


Monica: a novela ficará por aqui , podes ler sempre que quiseres. bj bem vinda !

direitinho: obrigada mais uma vez .

Ana Martins: é possível que já aqui tenhas andado :) bem vinda ..again... :)

Bia Maia: bem vinda , e a minha visita está prometida . Beijo

Celina: são essas palavras que nos dão força :) bj bem vinda !

Mar aràvel: obrigada .

continuando assim... disse...

Joanne : bem vinda ! obrigada

Zizi: ainda bem que segues... :) fico feliz , assim que puder vou buscar o selinho . bjk

Valéria: volta sempre!!! bjk