quarta-feira

Acabou de pensar



refugiava-se na sua arte - de olhos ardentes - lacrimejava cansaço -  pensou que sentando-se só iria ver meias cores - de tudo o que lhe parecesse colorido - de quando em vez sentia-se assim, descolorada e lacrimejante de cansaços revividos

e sem cor - pensou que o odor também nunca mais lhe chegaria - odor de relva fresca - de heras escondidas - de madeira envelhecida.

refugiava-se a céu aberto - nem se sentava - nem se lembrava… já quase não se queria

esquecia-se - por querer esquecer - obrigava-se a não lacrimejar e cansava-se - concentrava-se naquela arte que não sabia ter
mas tentava - tentava sempre que o aperto chegava- tentava sempre que os seus dedos lhe fervilhavam. 
inspirada em tanto - não fazia quase nada

acabava (agora) de pensar - cerrava o pensamento - cerrava os olhos - lacrimejava e descolorava-se

finalmente sentou-se e sentiu a madeira áspera - o vento fresco que (só) lhe pareceu uma rajada de nada

sentou-se de pernas cruzadas - desajeitada - pensou que já nem se sabia sentar por aí

olhou e viu cor num canto qualquer - não sabia por onde ir

calmamente
deixou-se ficar.

acabou de pensar.

TMQueiroz
Foto: Teresa Amaro


sexta-feira

a cinza caía-lhe em cima


tentava segurar o cigarro entre dentes
inspirava o fumo e deixava que se soltasse
dilatando as narinas - escrevia num teclado apagado
apagava pedaços de vida - mal se vêem - estão lá, adivinha-se o sítio
o fumo ardia-lhe nos olhos - lacrimejava e não tinha mão que lhe secasse a face
ocupava os dedos - dedilhando um teclado que se esbatia de uso - a cinza caí-lhe em cima do peito
agora não podia parar - nunca mais poderia parar.
os olhos ardiam - e não viam mais nada para além das sumidas letras de um teclado usado - tão usado quanto ela.
tinha-o usado na vida e gastava-lhe o tempo
usava-se a si mesma, para tentar reescrever vida.
escrevia-a em pedacinhos - pequenas frases - letras escondidas em palavras demasiado rebuscadas
nessas alturas pensava que a vida não se podia voltar a pintar - a tinta caía com o tempo - por si só
remenda-se ali - pincelava-se acolá
imperfeita
em paredes gastas-  teclas usadas e pinturas maltratadas - a vida corria plana - sem círculos
o fumo amarelecia as paredes da sala - a cinza caía-lhe em cima
no meio de nada
fazia-se em pó
e
não a preocupava.

Teresa Maria Queiroz - Janeiro 2012

foto- Teresa Amaro

quarta-feira

poisou as lentes aumentar



vasculhou lá pelos confins das caixas de memórias - raspou o pó 
instalado ao longo de tanto tempo
soprou com um sopro quente e desfez a névoa poeirenta que se espalhou no ar comprimido. 
pelas lentes de velhos óculos 
encontrou vestígios de tudo o que havia tentado esquecer
soprou outra vez
desta vez com mais força
queria voltar a ver o que lá tinha deixado
as letras confundiam-se e não se liam - as palavras deixaram de ser conexas 
andava em passos curtos percorrendo as páginas daquela sua casa
catalogava - admirava - lembrava e voltava a querer tentar esquecer 
voltou a olhar-se - ao volante de um carro alugado galgando veredas numa ilha emprestada
conduzia embalada pela música que tocava continuamente 

sem paragens que a deixassem respirar 
terminava e voltava ao início

era assim o sentir. 
o sentir não parava-  rebolava - corria - andava - sonhava e dormitava e repetia-se
em caixas arrecadadas desfolhava memórias guardadas
afundou as mãos, procurando corpo no sentir
tacteava bolas leves feitas de esferovite. 
segurava a ponta da página que lhe escorregava entre os dedos-  procurava outra
ao acaso
pelo acaso da sua vida -  nunca mais a conseguiria voltar a desfolhar
caminhava de pantufas quentes porque lhe arrefeciam os pés 
as mãos brincavam com o suave tacto da névoa já pensada 
deixou de ver
deixou de se ler
poisou os óculos de lentes de aumentar
comprimiu  os lábios e cerrou os dentes
parou de respirar
por momentos


talvez assim 
o sentir voltasse a invadir um espaço fechado
tentava dar asas ao sentir, e o sentir, já sentido, não voava nem se lia. 
voltou a fechar tudo num livro aberto ao acaso
que já não se desfolhava
abriu os olhos e sorriu calçando sapatos de caminhar. 
sacudiu as mãos...
poisou as lentes aumentar

TMQ- Dezembro 2011
foto- Teresa Amaro

sexta-feira

Agri-doce



nunca tinha desfolhado folhas de papel de arroz
nem sabia que de tão finas nunca se colavam 
olhou-as
folhas plenas de figuras - chamavam-lhe letras
em lombadas vivas e largas
em papel pardo - adormecia  de olhos abertos
ouvia sons e  notas de ouvido - fugidas de cor  .
agri-doce
começou a desfolhar folhas de papel de arroz
descoladas
o odor era adocicado - inalava-o com uma força extrema 
lânguida se deixou levar  para mundos de bambu
arrozais que não secavam 
sapatos de panos em pés de gueixa
agri-doce
tentava fixar os sentidos -  o tacto era suave nas folhas
rude na capa .
entre folhas de papel de arroz e capas de cartão…
misturava sentidos 
agri-doce.
docemente desfolhou folhas de papel de arroz -  misturou tudo em arrozais húmidos
apurou o ouvido e ouviu sem som - (todas) as folhas que se desfolhavam
leves por não pesarem
brancas
imaculadas
compressas em duras capas de cartão prensado
pés atados de gueixa
repisavam folhas de papel de arroz 
agri- doce

Teresa Maria Queiroz - Dezembro 2011

Foto - Teresa Amaro 

terça-feira

corroendo solas de pés, pisadas.

já sem formato de qualquer corpo
sem já estar por ali sentada, desembrulho-me de panos
húmidos
segui , corroendo pés descalços
frescos
destapados de panos tombados
que por ali ficaram
sentados em pau
já sem corpo que envolvessem
manchados de amor desfeito
já sem formatos de mim
num trono desamparado
perfeito
repousado
embrulhado em panos que já não voam
pesados
descansam-me desamores
sentados em nada
já não caem
já sem formato de qualquer corpo
desembrulho-me do peso dos panos
caídos
sentados
amarrotados
manchados
molhados de amor desfeito
segui por aí ...
corroendo solas de pés, pisadas.

Teresa Maria Queiroz - Dezembro 2011
Foto - Eduardo Rosas

domingo


sempre tive medo que os meus pés se entrelaçassem nos raios das rodas das bicicletas

sempre tive medo que o selim se soltasse eu caísse por ali abaixo, sem ter onde me agarrar.
nunca soube endireitar o "guiador", fugia-me por todos os lados
eram sempre demasiado grandes para mim
nunca entendi para que servia o ferro enorme, entre o selim e aquela espécie de volante
as bombas de ar nunca me fizeram suster a respiração
os carretos das rodas estavam sempre cheios de um óleo viscoso e peganhento, seria esse óleo que teríamos que limpar o resto da vida ?

nunca me deixei descer uma ribanceira ...assim por ali abaixo....

agarrava-me com força aos travões e não saía do mesmo sítio, as mão ficavam vermelhas , de tanta força que fazia

nunca entendi porque me haveria de equilibrar em duas rodas
seria vida assim mesmo, equilíbrio inseguro---

não andava ..nem de olhos fechados
não andava na estrada
podia ser atropelada
nunca quis


sempre tive medo que os meus pés se entrelaçassem nos raios das rodas das bicicletas ....

TMQ 2011
Foto Teresa Amaro



sexta-feira

chora-me!


escrevo-te sem palavras
só porque palavras
já não nos sabem falar
figuro-te rabiscando o que me  soa
....
se olhares bem, consegues ouvir o som que não tem
não me lês por não saberes
tentas ouvir-me
e
escrevo-te desconexo
em palavras desarticuladas
desemparelhadas
revoltadas
figuradas
não me lês !
vês ?
somos dois, de costas voltadas, mergulhados em indefinidas palavras
resta-nos a cor
o rosa choca-nos
 na nossa impávida sabedoria
o rosa choca-nos
e
embala-nos em  palavras que já não conseguimos ouvir
agora vê ...como nos envolvem
olha só...
e
sente-me sem me ouvires
sem notas de som , seguidas e continuadas
qualquer som que possas construir
assim...só ...
sem palavras desconexadas
sem me saberes ler, em figuras desenhadas
ouve-me !
abre os olhos e fecha-os
lacrimejados de rosa choque
chora-me!

Texto - Teresa Maria Queiroz - nov 2011
Iknie - José Tavares  - http://iknie.wordpress.com/


focamos o infocável


numa lente reviramos o Sol , desfocamos para nos focarmos
em luz directa
numa lente embalamos a alma , afagando-a para que nos conforte
em sombras ténues
numa lente de alma reviramos a chama
nesgas de luz que aumentamos
destapando óculos de aumentar
reduzimos o olhar , olhamos o amor com alma focada
numa lente mais que inventada
almas amarrotadas
focadas em lentes reviradas
mãos seguras que nos seguram a luz que não perdemos
alisam chamas que não nos queimam
amamos
só o que queremos ver
focamos o que desfocado nos parece
desaparecemos num cik de óculos fabricados
e
numa lente reviramos o Sol
embalamos a alma
afastamos nuvens sem mãos que as agarrem
sem sombras indirectas
só numa mágica lente de alma
focamos o in focável
Numa lente... reviramos o Sol


Teresa Maria Queiroz- Novembro 2011
feito para lente de alma

Foto João Castelo Branco

buracos dispersos

domingo

buracos dispersos



pedaço a pedaço
compomos cristais

empoleiramos uns nos outros
cristais de esperança
vão surgindo
num puzzle que nem sabemos fazer

compomos uns
endireitamos outros

lapidamos cristais finos
transparentes
gotas de água
esperanças molhadas

Lágrimas mascaradas

empoleirados, qual castelo de cartas
com cuidado
passamos entre frestas desses cristais imaginados
com cuidado
seguramos e não os deixamos cair
com cuidado !

construímos paredes de cristais agudos
aguados….

e os cristais estalam
parte-se um aqui , outro acolá
embaciam-se uns
estilhaçam-se outros

desaparecem

voltamos a erguer cristais
mais frágeis que nós
por aqui e por ali
erguemos outras paredes
límpidas

embaciam-se uns
estilhaçam-se  outros…

cristalinos muros
fachadas lavadas…

buracos dispersos

cai a parede sonhada

Teresa Maria Queiroz - Outubro 2011
Foto - Teresa Amaro

sábado

rotos em correntes do meu ar

rotos em correntes do meu ar
restos recortados num vento parado
romperam por ali
por aí saíram
andando em estradas alinhadas caíram em buracos rotos
recortados em verde
às avessas
caíram estrada abaixo
romperam buracos de vento
meu ar
meu sopro
rotos de correntes de ar
respiram-me
sopros de força
correntes de vento
romperam-me
tão fácil
tão frágil
tanto frio
rotos em correntes de um ar soprado
sem força que se sopre
romperam-me e por ali me saíram
caídos em buracos rotos
em cada respiro meu
em cada suspiro cortado
tão fácil
tão frágil
tão roto ....

Teresa Maria Queiroz - Outubro 2011
Foto Sonja Valentina


segunda-feira

cobertores de verdes baços


e esse som de ondas tímidas
salpicadas em verde
e esses pingos esperançados
que nunca cantaram para ti

cobertores de verdes baços
afagos que não te aquecem
milhões de tons que te cegam
pingos de água que se veste de verde
soam fortes

caídos em terras de lama esverdeada
só porque nunca...
para ti ninguém cantou

e esse som de pingos arrojados
tímidos sons pintalgados
canções de milhões de tons de verde

milhões de sons
que não escutas...

e alguma vez alguém te pintou
assim verde
alguma vez alguém te cantou
sem som

e cego não vias sons de rios
cheios de espuma
lembrados em milhões de tons de verde

e surdo não escutavas
os tons que se espalhavam

e coberto de verdes baços

envolto
esverdeado
não acordas

adormeces assim
em cobertores de verdes baços
nesse tom
pintado em ondas tímidas
de quem nunca para ti cantou

Texto - Teresa Maria Queiroz  - Setembro 2011
Foto - Teresa Amaro



terça-feira

abano degraus de anões


subindo degraus de anões
passando em frestas para o lado de lá
cega-me a luz
subo degraus dedilhando espaços
onde só cabem os dedos mais finos
sopro na sombra
subindo degraus de anões
enrolo-me numa bola escura
gigante
seguro-a nas mãos
cega-me a luz
dedilho persianas de luz
estilete que não verga
passeio com passos dedilhados
escondo-me na sombra enrolada
subo degraus de anões
sopro na sombra
num vento fininho
abano degraus de anões

Teresa Queiroz - Setembro 2011
foto Sonja Valentina 

Sentada , dormia e via



Sentada , dormia e via
 ….via tudo .
Via tudo o que por aí vinha .
Sentada , tentava segurar o susto
Sentada, dormia , dormia e via , via tudo !
Sentada tinha medo
Desequilibrada
Dormia  
Não se segurava a nada , sentada… nada conseguia
Não entendia e entendia tudo o que não queria
Sentada , dormia e via
De olhos abertos lacrimejava
Não os podia fechar , não podia deixar de ver aquilo que já via
Sentada, via e dormia
Sentada destemida, abraçava-se ao medo
Gelavam-lhe os pés
Sentada, calada, via e dormia
Dormia em si , calava-se em gritos
Sentada tinha medo
Afagava as mãos
Já não dormia deitada
Agora dormia sentada, porque via
Via tudo o que aí vinha
Sentada gelavam-lhe os pés , arrepios nos braços
Sentada , ouvia e calava-se
Ouvia ainda mais do que via
Ouvia o susto que aí vinha
Sentada , não se encostava a nada
Dormia em lágrimas de olhos abertos
Sentada, dormia e via
Via tudo !
Gelavam-lhe os pés…afagava as mãos
Sem equilíbrio , não se sustentava
Dormia! 

Teresa Maria Queiroz - Agosto 2011
Foto- Sonja Valentina 

quando assim....jorrarem dentro de mim


quando de dentro de mim jorrarem
todas
assim duma vez só
serão azuis
aniladas

quando de dentro de mim se desfizerem
e em líquido se tornarem
quero-as azuis
quero que se bebam

envoltas num vidro límpido
para que se vejam
para que todos as possam contemplar

quando de dentro de mim jorrarem
todas
e assim
esborratarem o que nunca tem cor
quero-as azuis

quero que as vejas também
quero que as possas segurar
que possam pingar na pontas dos teus dedos

quero que sejam azuis
que se conservem em frascos de compota
num límpido vidro de nada

quando de dentro de mim se entornarem
quando me deixarem seca
quero-as azuis
num azul anilado

quero que possam pingar só quando tu lhes tocares
quero que te molhem as palmas das mãos
que pinguem entre os teus dedos

quero-as azuis
aniladas
fortes
quando assim....jorrarem dentro de mim
quero que as segures....

pingadas
pintadas
arrumadas
conservadas
azuis
aniladas ....

Teresa Maria Queiroz - Agosto 2011
Foto - Helena Lagartinho


segunda-feira

Trauteava rock em teclas dum piano clássico, enorme!


Passava os dedos como quem toca teclas de piano no muro alto 
Cantarolava baixinho porque não sabia cantar alto 
Os dedos davam-lhe as notas imaginadas, os murmúrios confortavam-lhe apertos na garganta . 

Olhava o muro alto, lá em baixo uma praia de pescadores, sempre a assustou aquele muro desequilibrado, nem percebe como ninguém cai dali abaixo, nem percebe como alguém caí assim …de si abaixo !
Tocava um piano imaginário , fazia sons de garganta .

Lembrava a praia , a areia molhada numa noite fria …quantos anos ? .. vinte ? …mais …talvez trinta ...

Lembrou barcos de pesca com pescadores encardidos do sol e do salitre , histórias de marés e de raia miúda , conversas noite fora , encostados a cascos frios… lembrou-se do “Mar à Vista” ….

Passeava encostada àquele muro que nunca entendeu , tocava as notas que sempre gostou de ouvir . E aquela cor , aquela cor de pescadores, encardidos de salitre, aquela cor, que se esbatia na sua memória, não lhe saía da cabeça .

Trauteava rock em teclas dum piano clássico, enorme! Desenhado por ela naquele muro baixo, desequilibrado, perdido no tempo amargurado , agora parecia-lhe tão pequeno , tão perigoso ….sentiu aqueles grãos de areia grossa, húmida, fria, sentiu-a assim, no final dos tornozelos …lembrou-se que era assim ...

Hoje dia estava mais cinzento. Ali, o tempo sempre foi cinzento… naquele dia, o cheiro do peixe fresco agoniou-a, impotente ao tempo …naquele dia as pedras grandes, da calçada que pisava , torceram-lhe os pés ….!!

Tocava piano, em teclas enormes, sem som, deixou de gargarejar sons antigos. Não pares de cantar , nem que seja baixinho, não te cales, não adormeças esses grãos frios de areia grossa , naquela noite gelada , tão passada…
Naquele dia, ali, mesmo ao cimo da praia dos pescadores, a tristeza do que nunca foi , toldou-lhe a voz , embaciou-lhe o olhar !

Torceu-lhe os pés !

Teresa Maria Queiroz - 1 de Agosto 2011



pintalguei-me de umbigos falsos


resolvi espelhar-me
assim...
resolvi diluir-me em pepitas de ouro velho
de fechadura cerrada
pintei-me de cor dourada
molhei-me em pincéis de cerda fina
resolvi diluir-me
assim...
umbigos desenhados
procurando-me
fechei-me em ouro
em ouro velho
numa fechadura dourada
espelhei-me para que se  reflexem
resolvi abrir buracos em umbigos falsos
pintar com pincéis finos
assim...
riscos invisíveis de pepitas de ouro
encerrei-me num metal mole
dilui-me
moldei-me
assim ...
espelho-me só para que não me vejam
neste meu ouro velho
marcaram-me unhas recortadas
riscam-me este meu  espelho
assim...
tocam-me à porta
não abro uma fechadura colada
dourada
não me abro
amoleci-me em ouro
assim...
pintalguei-me de umbigos falsos
dilui-me em metal mole
assim...

Teresa Maria Queiroz  - Agosto 2011
Foto  - Helena Lagartinho

sexta-feira

De pé seguiu caminhos que não estavam traçados

E fumava todos os cigarros que conseguia encontrar, lembrando outros fumos , inspirava e expirava este , este que lhe chegou assim de nada , porque dizem que não há fumo sem fogo tentava encontrar a chama que se derretia num borrão aceso
Tantas vezes se perguntava se isto era só isto … não podia ser , e procurava razões nas mais pequenas brechas do dia
De noite revolta-se na cama
Amanhã seria um dia com a mesma luz , amanhã …já sabia o que seria o dia
Olhava o maço meio vazio , seria o segundo ? já não contava as horas para fumar cigarros onde o fumo se esquecia  e nunca se desvanecia
Amanhã seria um dia , outro qualquer …de manhã iria ensaiar um sorriso, só porque dizem por aí, que de manhã se deve sorrir ao dia
Nem nunca percebeu porquê , quando as manhãs eram tudo menos menos sorridentes . E os cigarros , de manhã, nunca lhe souberam bem
Amanhã , se chegar … será que ainda conseguirá amar ? nunca se perguntou
Deixou de se revirar na cama
De pé seguiu caminhos que não estavam traçados, odeia caminhos traçados , detesta traçar caminhos
E na dúvida do amanhã , medida de tempo que nada lhe diz , pergunta.se… pergunta-se sempre… 

Teresa Maria Queiroz - Julho 2011

abraça-me só porque te conheço o afago ...

estás aqui ?
segues ao meu lado ?
...não conheço quem me abraça , não conheço o seu som
estás aqui ? estás ao meu lado?
já não te oiço !

não te vejo ...
já não te sinto
nunca mais te senti ...
nem vejo a tua sombra
estás aqui ?
segues ao meu lado ...?
nunca mais te consegui tocar
assim como quem já se esqueceu do som..

abraça-me ..só porque te conheço
revira-me
dá-me voltas .... grita.me ou sussurra-me ...
não me morras
tal como prometes-te ...

não andas por aqui !
nunca mais te senti ao meu lado ....
já nem sombra me és
se calhar
eu nunca mais te quis
e asseio o teu abraço ?
só porque já não sei quem me abraça outra vez ...

embaciam-me os olhos
estás por aqui ? segues ao meu lado ?
não te cheiro
não te vejo

fizeste-te em nada
tal como um dia me prometeste que farias ....?
reviraste.me ...
não te oiço !
nunca mais te vi ...
deixei - te morrer... tal e qual como tu querias ...

abraça-me
só porque te conheço o afago ...
nunca mais te quero lado a lado .

Teresa Maria Queiroz
Julho 2011
foto - Sonja Valentina

Homenagem António Lobo Antunes